Estava já há dois dias sem inspiração para escrever. Talvez seja porque escrevo demais. Mas sei que não é. A inspiração não guarda relação com a quantidade, mas sim com a qualidade. E como o vento, que ultimamente tem jogado contra a Covilhã e para estes lados tem mandado muita chuva – e frio – soube por uma amiga, uma idosa de coração quente, que há muita gente a passar frio por essas terras.
No início fiquei um pouco constrangido quando começamos a conversar. Até porque recém havia conversado com minha esposa sobre o consumo de gás em nossa morada. Apenas um adendo: em minha casa paga-se mais pelo gás do que pela comida. Mas vamos ao que interessa. A conversa avançou e reparei que estava a chorar com a barriga cheia. Sim, há gente que passa frio, em pleno ano 2025. E, se passam frio, é sinal de que também possam passar fome. Basicamente, são imigrantes, que como eu, chegam em Portugal à procura de algo melhor do que oferecia a pátria mãe. Pátrias que nem sempre são tão gentis como deveriam. É o problema da imigração. Sim, o problema «dos» imigrantes e não o problema «com» os imigrantes.
Minha amiga contou-me que, junto à sua morada, foi depositado um colchão. Uma cena não muito incomum nas ruas da Covilhã. É assim. Quando as coisas perdem a utilidade, acabam ali, por adornar os contentores até que algum veículo as venha recolher para o destino. Chovia, como tem sido os nossos dias. Minha amiga então reparou em uma senhora, de cor negra, a agarrar o colchão para levar sabe-se lá para onde. Cristã que é, não ficou como tantos, impassível à cena. Foi a ter com ela e soube que estavam a passar frio. Recém chegados à Covilhã, sem recursos para comprar roupas, são pessoas que ainda por cima precisam enfrentar esse inclemente frio, sem direito a gás natural, salamandra de pellets ou recuperador de calor. Nada disso. Vivem como os antigos operários das tecelagens dos tempos de Salazar.
Uma senhora, mãe, tal e qual já foi Maria, e seus três filhos. Sabe-se lá em que condições dormem, ao ponto de levar à cabeça um colchão e toda a chuva que suas espumas foram capazes de absorver. Fiquei a me perguntar de que forma irão secá-lo? Será que dormirão nele assim, húmido? Como pode? De certeza, algum coração mais privilegiado e confortado com as benesses da vida ainda há de pensar: por que razão essa gente vem parar aqui? É verdade. Uma boa pergunta, que seria mais facilmente respondida se o «por quê» fosse trocado pelo «para quê».
Há muitos imigrantes a chegar. Alguns com boas condições e outros nem tanto. Ambos têm algo em comum e não é o dinheiro ou bens. É a falta de perspetiva em seus países. E se passar frio e fome em Portugal é ruim, é sinal de que em seus países a situação é ainda pior. Portanto, caros portugueses, lembremo-nos que se algo está ruim, ainda pode piorar. Ninguém é tolo ao ponto de deixar o conforto de suas pátrias para vir cá passar necessidade. Talvez isso explique, aos que não estão acostumados com estas cenas, por que razão as pessoas chegam com uma mão na frente e outra atrás. Seriam os ventos da esperança? Os ventos de abril? Difícil responder. Mas vêm e agora aqui estão. Por certo, imaginam encontrar aqui um lugar seguro, por mais inóspito que possa ser o frio, a chuva, as diferenças culturais e tudo mais que envolve essas jornadas.
Mas essa conversa toda não leva a lugar algum. Ou leva? Quando penso que não leva, é porque o frio é assim. Faz com que recolhemo-nos mais cedo. Faz com que nos fechemos em nossas confortáveis casas, à beira de nossas lareiras e salamandras. Há sempre um bom vinho, um caldo verde e um bom pedaço de pão com chouriço para nos manter entretidos em nosso pequenino mundo. Ao fecharmos a janela, damos as costas ao mundo. Por pensar corretamente que somos todos iguais, que somos humanos, imaginamos que todos estão em suas casas vivendo a mesma cena. Mas não. Infelizmente nem todos têm a mesma realidade.
O mais crítico pode então apontar e questionar: o que é preciso fazer? Por que cargas tenho eu de me preocupar com os outros?
Ou, quem sabe, há quem diga que não reparou, que não tinha conhecimento. Mesmo gente de bom coração, grupo do qual imagino pertencer. Então, na dúvida, perguntemos, pois há sempre um vizinho, um amigo, alguém que frequenta uma Igreja, uma pastoral ou algo do género. Há sempre pessoas a trabalhar com isso. Pelo amor ao próximo, como tanto insistiu Jesus em sua breve passagem. E a razão é uma só. A assistência ao próximo é como secar gelo. Nunca cessa. Termina para uns (com a graça de Deus e a ajuda dos homens) mas logo começa para outros.
E nesse dinamismo que é a vida, concluo: é sempre bom ajudar. É melhor ajudar do que ser ajudado. Mas nada, absolutamente nada, nenhuma atitude ou ação terá valor se as coisas não forem feitas com o coração, de preferência bem quentinho.
Por Marcos Vinícius Leite, colunista e colaborador do Jornal Bom Dia, de Erechim/RS e também colunista do jornal Fórum da Covilhã